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Saúde Business Web – 30/07/2008
OPINIÃO: A Lei seca e a conseqüência nos transplantes
por *Carlos Varaldo
No Rio de Janeiro os transplantes de fígado em Julho diminuíram 50%
No mundo em que vivemos, atitudes corretas e honestas como a Lei Seca, de tolerância zero de bebida alcoólica para dirigir veículos pode ser considerada um exemplo muito bem colocado na carta de número sete do baralho do Tarô (representando o diabo), definindo que os fins justificam os meios: menos álcool resulta em menos acidente. Mas Isaac Newton já nos dizia em sua terceira lei que "toda ação provoca uma reação de igual intensidade e em sentido contrário", ensinando com isso que antes de reagir devemos agir, levando em consideração o desdobramento que uma ação poderá causar em outras áreas da sociedade, neste caso da saúde.
Portanto, quando as autoridades implantam com todo o rigor a Lei Seca, objetivando somente os acidentes de trânsito e esquecendo de discutir com outras áreas do Ministério da Saúde as conseqüências que a redução do número de acidentes pode ocasionar, problemas na captação de órgãos para transplantes acontecerão irremediavelmente. A Lei Seca é necessária e deve continuar a ser aplicada com rigor, mas por falta de uma discussão estratégica das ações coordenadas na saúde pública, o Ministério da Saúde está permitindo que se crie um cenário no qual, não demora, a oferta de órgãos para transplantes estará consideravelmente diminuída. Como resultado, já no mês de julho, a captação de órgãos no Rio de Janeiro caiu pela metade. Somente quatro transplantes de fígado foram realizados em trinta dias.
Parece contraditório e até trágico, mas a captação de órgãos para realização de transplantes está diretamente ligada ao número de acidentes de trânsito, já que indivíduos politraumatizados são os candidatos a evoluir para a morte cerebral. Se após trinta dias da implementação da Lei Seca estamos comemorando a redução de acidentes e do número de mortes no trânsito, daqui a poucas semanas estaremos observando o aumento de mortes nas filas de espera por órgãos para transplantes, óbitos que, numa análise fria das estatísticas, deveremos debitar do sucesso da Lei Seca.
Não somente é necessária a imediata realização de campanhas que incentivem a doação de órgãos, mas o momento é altamente propício para, de uma vez por todas, implementar sistemas de captação nos hospitais de emergências. A lei de transplantes determina que cada unidade hospitalar de emergência deverá possuir uma comissão intra-hospitalar para a captação de órgãos. Cabe a esses profissionais observar a entrada de feridos e acompanhar aqueles que apresentem maior possibilidade de evoluir para a morte cerebral. Os familiares desses pacientes devem receber informações sobre o crítico estado de saúde, os exames que estão sendo realizados, os esforços para tentar evitar o agravamento do quadro clínico e, se desafortunadamente o desenlace é a morte cerebral, então, a família deverá ser abordada sobre a vontade de doar os órgãos.
Com emergências lotadas, hospitais que não possuem as comissões intra-hospitalares são deficientes no atendimento aos familiares dos pacientes que ingressam nas emergências e somente abordam as famílias no momento da morte cerebral. Esta se constitui na principal causa de recusa em autorizar a doação, pois a maioria dos familiares relata que foi ignorada durante o período de internação, não recebia informações e somente na morte cerebral foi procurada para saber se concorda em autorizar a doação dos órgãos.
Neste momento, com o número menor de acidentes, os profissionais que trabalham nas emergências passam a dispor de mais tempo para dedicar-se aos pacientes e às famílias. Pode ser o momento oportuno para capacitar os profissionais e implementar as comissões intra-hospitalares. Em alguns hospitais, poderá até ser possível se reservar um leito de UTI exclusivo para a manutenção dos pacientes com morte cerebral aguardando a doação.
Para evitar a reação descrita por Isaac Newton na lei da física, deveríamos seguir uma das famosas e ecléticas sentenças pragmáticas sobre aspectos da vida de Benjamim Franklin, o qual afirmou só conhecer duas certezas na vida: os impostos e a morte. A Lei Seca não é um imposto, mas, tal qual um imposto, a origem é do governo. Devemos atuar rapidamente para que a segunda certeza de Benjamim Franklin não aconteça, evitando dessa forma a morte daqueles que esperam um transplante de órgãos para sobreviver.
*Carlos Varaldo e presidente do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite
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