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Folha de Londrina - 27/07/2008
Em entrevista à FOLHA, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia afirma que remuneração do SUS para tratamento de diálise é injusta e arriscada
Divulgação
‘‘Em uma época com recordes de arrecadação de impostos, as pessoas estão deixando de ser tratadas por falta de investimento’’, critica Jocemir Lugon
Estimativas da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) indicam que cerca de 80 mil pessoas fazem diálise no Brasil. No entanto, o número de brasileiros com disfunções renais crônicas é muito maior e, segundo o presidente da SBN, Jocemir Lugon, tem gente ficando sem acesso ao tratamento devido ao repasse insuficiente de recursos por parte do governo federal às clínicas de diálise.
Na última semana, entidades que representam médicos e renais crônicos encaminharam ao ministro da Saúde, José Gomes Temporão, carta aberta que denuncia a falência do sistema público de diálise, agendando reunião para os próximos dias. Nesta entrevista à FOLHA, Lugon denuncia que pessoas estão morrendo por falta de tratamento renal.
Por que o sistema de diálise do Brasil está em situação precária?
Não existe uma política de reajuste sistemático da diálise no Brasil. Foi com muita dificuldade, que no início de 2006, conseguimos um pequeno aumento e a promessa de se fazer outro reajuste em dezembro daquele ano. Porém, passou 2006, 2007 e já estamos no meio de 2008 e nada de a promessa se tornar realidade. O honorário da diálise já estava muito defasado naquela época. O próprio governo tem um estudo de custos desse procedimento e sabe que a remuneração é injusta. Hoje, o Sistema Único de Saúde (SUS) paga R$ 130 por um sessão de diálise e o custo de cada sessão é de R$ 160. As clínicas de hemodiálise sobrevivem por que existem os planos de saúde, que pagam em torno de R$ 200 por sessão. Estimamos que seria necessário o SUS pagar pelo menos R$ 180 por sessão.
O senhor quer dizer que os planos de saúde estão subsidiando o SUS?
É isso mesmo. Mas as unidades menores, que atendem basicamente o SUS, estão enfrentando muitas dificuldades, pegando empréstimos nos bancos.
Qual a perspectiva sobre a reunião que vocês reivindicam com representantes do Ministério da Saúde?
Nós estivemos reunidos com o secretário de atenção à saúde do governo federal, José Carvalho de Noronha. Ele nos ouviu atentamente e recebeu uma carta de protesto dirigida ao ministro da Saúde. Mas, naquele fim de semana, Noronha se demitiu, então o trabalho foi à deriva. Acredito que a carta tenha chegado ao ministro, mas até agora não tivemos nenhuma resposta. Ficou marcada uma outra reunião para a última quarta-feira, que acabou sendo adiada para a primeira semana de agosto. Atualmente, estamos trabalhando com projetos a médio e longo prazo, como um plano de prevenção à insuficiência renal, mas precisamos de uma solução emergencial. Neste momento, seria aumentar as verbas para a diálise. Em uma época em que temos recordes de arrecadação de impostos, não se destina a quantia necessária de verbas para a saúde. As pessoas estão deixando de ser tratadas por falta de investimento.
Com a falta de recursos nas clínicas, tragédias como a que aconteceu em 1996 em Caruaru (PE), quando 73 pessoas morreram devido à contaminação da água utilizada na hemodiálise, podem se repetir?
Eu espero que não. Todos os nefrologistas brasileiros são muito responsáveis e nosso programa de diálise, apesar da falta de verbas, tem qualidade internacional. Para você ter uma idéia, a nossa mortalidade é de 13% ao ano. Nos Estados Unidos, essa taxa é maior que 20%. Os nefrologistas têm feito todos os esforços e até dívidas para oferecer qualidade.
Tem muita gente deixando de receber o tratamento?
Isso com certeza vem acontecendo nos últimos dois anos, pois o número de pessoas fazendo diálise no Brasil crescia cerca de 9 a 10% ao ano e nos últimos dois anos o crescimento foi de 4%. Tem doentes ficando fora do sistema, ou seja, estão fadados à morte.
Como funciona uma diálise?
Sessenta por cento do nosso corpo é composto de água, o que chamo de nosso mar interno. A vida polui o nosso mar interno, jogando impurezas, resíduos. Esse mar é limpo diariamente pelos rins. Quando eles deixam de funcionar, a diálise é uma alternativa para a retirada das impurezas por meio de um método artificial. Quem tem os rins parados e não faz diálise morre em um tempo muito curto.
O que deve ser feito para previnir a disfunção renal?
As pessoas mais propensas a ter doença renal crônica são as diabéticas, que têm pressão alta ou histórico familiar de necessidade de transplante ou diálise. Esse grupo de risco deve fazer exames simples, como a dosagem de creatinina no sangue e nível de proteínas na urina, e com isso obter uma estimativa de como está o funcionamento dos rins. Esses exames custam pouco e podem propiciar um diagnóstico precoce. Como toda enfermidade, se houver diagnóstico e tratamento precoce, há grande chance de retardar a progressão e até impedir que as pessoas venham a ter o rim completamente destruído.
Wilhan Santin
Reportagem Local
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