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UNIDAS – 24/08/2008
RN: 1.345 pessoas na fila à espera de doação de órgão
Damiana da Silva, 44, está há seis meses na fila de espera por um rim. Moradora do município de Riachuelo, a rotina de viajar três vezes por semana para fazer hemodiálise na capital, distante 71Km, impede a ASG de trabalhar. “Não faço mais nem os serviços de casa. É difícil, mas tenho fé em Deus que eu vou conseguir uma doação compatível”.
Quando Pedro Santos tinha sete anos de idade, sua mãe percebeu que o filho sentia dificuldades para enxergar e após diversos exames, inclusive em São Paulo, foi diagnosticado com “ceratocone” no olho direito, doença degenerativa que pode causar cegueira total. Hoje, com 23 anos, o estudante de Direito espera há quatro um transplante de córnea. “Prefiro dirigir de dia, e não posso ler muito tempo, porque a cabeça e os olhos começam a doer muito. Não enxergo bem à noite, e às vezes não reconheço as pessoas”.
Ele relata que desde os 15 anos, a visão vem piorando. “Tive sorte porque não desenvolvi a doença no olho esquerdo, mas com ele só enxergo 60%”. Segundo o médico de Pedro, um transplante de córnea no olho direito poderia otimizar sua visão entre 70% e 90% do total de um ser humano.
Damiana e Pedro estão entre as 1.345 pessoas na fila de espera por um transplante de rim, coração, fígado, medula óssea e córnea no Rio Grande do Norte, mas as estatísticas de doações e transplantes mostram que parte dessas vidas não será salva a tempo. A lista maior, de pacientes com problemas renais, é um exemplo da triste realidade: 848 pessoas aguardam. Delas, entre 8 e 15 morrem a cada mês, e novos nomes são acrescentados à lista.
“O número de receptores cresce a cada dia no Brasil e no RN não é diferente. Há uma disparidade grande entre o número de doações e de transplantes necessários. O patamar de cirurgias não é ‘satisfatório’, mas comparando à realidade do Nordeste, nossa avaliação é positiva: somos o quarto lugar em transplante renal”, disse a coordenadora da Central de Transplantes no RN, Francinete Guerra.
Mesmo as córneas, primeiro lugar no ranking de doações e cirurgias no RN (136 realizadas somente em 2007), que podem ser transplantadas em tempo superior ao de outros órgãos, não são suficientes para diminuir o drama de quem não tem alternativa senão esperar.
Some-se a estes números os casos de urgência, em que os pacientes têm prioridade nacional sobre a fila e um tempo curto de espera, muitas vezes desperdiçado. São pessoas que sofreram acidentes e caso não recebam o transplante em poucas horas, vão a óbito. O problema pode não ser a falta de órgãos, mas de doadores: em Natal, morrem todos os meses entre 500 e 600 pessoas, segundo estatísticas da Secretaria Municipal de Saúde.
“O RN tem hospitais e equipes habilitadas pelo Sistema Nacional de Transplantes para realizar transplantes, mas precisamos aumentar o número de equipes envolvidas e melhorar a estrutura”, admite Francinete.
Falta atendimento humanizado e equipes para as cirurgias
“Não dá para culpar isoladamente A ou B, mas a fila de espera por órgãos poderia ser consideravelmente menor”, afirmou o cirurgião gastroenterológico e chefe da equipe de transplante de fígado do Huol/UFRN, a única credenciada no RN, Antônio Medeiros. “Precisamos de um atendimento humanizado desde o momento em que o paciente chega à emergência para ser atendido. Não adianta tratar bem os familiares de uma vítima apenas quando há possibilidade de doação dos seus órgãos”, desabafou.
A nefrologista Kellen Costa, que acompanha pacientes renais antes e após os transplantes, tem opinião parecida. Ela credita o baixo índice de doações a vários fatores. “Tanto se deve à resistência da família do doador em potencial, que muitas vezes não aceita a morte encefálica para desligar os aparelhos, por exemplo, como à própria rede de captação. Existem poucas campanhas, e o precário atendimento inicial dificulta a captação mais tarde”. “Em relação a outros tipos de transplantes, os rins são mais simples, porque ainda podem ser utilizados até 48 horas depois de retirados do doador, mas a média de transplantes no RN precisa melhorar para atingir o que se preconiza nacionalmente. Nas últimas duas semanas ocorreram seis doações de rins com sucesso, mas é uma situação atípica”. Antônio Medeiros atentou para a falta de exclusividade dos profissionais das equipes de transplantes, um fator que pode ser decisivo na hora de salvar uma vida.
“Já deixamos de realizar transplantes porque os médicos não puderam comparecer, estavam escalados pela Secretaria Estadual de Saúde para atuar em plantões de outros hospitais. Os gestores precisam entender que a disponibilidade dos especialistas é essencial, a maioria dos acidentes, de onde vem grande parte das doações, ocorrem à noite ou em finais de semana, horários atípicos. Tentamos sensibilizar a Sesap e o Ministério Público, para que os profissionais destas equipes sejam exclusivos em regime de sobreaviso 24h”, completou.
Ele acredita que essa consciência deve existir também entre os profissionais envolvidos na rede de captação e atendimento. “Precisamos de profissionais empenhados e comprometidos em agilizar os caminhos para que os transplantes aconteçam”.
Cresce a busca por um fígado no RN
Etilismo, hepatite C e reações ao paracetamol aumentam busca por um novo fígado
Até 2007, o critério principal para receber um transplante de fígado no país era o tempo de espera na fila de doação. A cronologia sobrepondo o quadro clínico gerou contestações entre os especialistas, e a partir de março do ano passado, um novo sistema de seleção foi adotado: o “score de Meld” (Modelo para Doença do fígado de Fim-Fase). A escala numérica, de 6 a 40, define o grau de urgência dos candidatos adultos em espera de transplante de fígado. “O Meld acima de 25 é considerado grave: o paciente tem entre 70 % a 100% de risco de vir a óbito em três meses, caso não consiga um enxerto”, explicou Antônio Medeiros.
Mas a regra tem exceção: os pacientes de urgência, a maioria por reação alérgica ao paracetamol, têm prioridade máxima no país. “Eles têm, até sete dias de vida para receber um transplante. Desde março de 2007, quando iniciamos esse tipo de procedimento, já deixamos de salvar a vida de três jovens porque não tivemos doações em tempo hábil”, disse o médico.
Ele explica que o HUOL tem capacidade para realizar dois transplantes mensais, mas isso também é dificultado pelos problemas de comunicação entre os profissionais. “A grande maioria dos receptores entra na fila por agravamento da hepatite C, que pode ser adquirida até em uma cirurgia cesariana ou etilismo [doença causada pela ingestão de álcool em excesso]. Mas vale salientar que o etilismo é uma doença psicossocial, quando o indivíduo não tem controle sobre o desejo de beber, e um dos critérios para entrar na fila é estar ao menos seis meses sem ingerir álcool”.
Córneas é a doação mais comum no Estado potiguar
No Huol/UFRN funciona também o banco de olhos do RN, órgão responsável pela extração, preservação, armazenamento e distribuição da córnea. “É a doação mais comum, e o tempo de armazenamento no banco pode chegar a 14 dias”, explicou a enfermeira do banco, Maria Josefina Nóbrega. Mesmo com um período maior para transplantar, até 14 dias, 441 pessoas – de todas as faixas etárias – esperam uma doação de córnea no RN. “A captação no estado ainda é inferior à demanda, as pessoas precisam se sensibilizar mais com a importância de ajudar ao outro”, diss.
O oftalmologista Uchoandro Uchoa, um dos quatro médicos credenciados para realizar o tipo de transplante no RN, explica que a prioridade da fila de receptoras é de crianças de até sete anos.
O alívio de quem conseguiu finalmente um novo órgão
A única certeza é a de que, quando a rede funciona, as histórias com final feliz se multiplicam. Há dez anos enfrentando problemas renais, Irinete Cunha, 53, entrou na fila de espera para receber um rim em 2004. Com o passar dos anos, a saúde piorou, as sessões de diálise se tornaram mais freqüentes e o corpo debilitado.
“Me sentia fraca, quase não saía de casa e me afastei do trabalho”. Em 2007, ela foi chamada para um teste de compatibilidade para um órgão doado. “O resultado negativo me fez pensar que não ia conseguir”. Mas conseguiu.
Na sexta-feira (18), um gesto de solidariedade da família de uma paciente que teve morte encefálica aos 68 anos, mudou a vida de Irinete e de outra receptora. Os exames foram positivos e, dois dias depois, o sorriso denunciava o alívio pelo fim da longa espera. (Ellen Rodrigues - Tribuna do Norte-24.08)
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