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UNIDAS – 05/08/2008

CE: Doações de órgãos continuam

Embora as mortes por acidentes de trânsito tenham diminuído por causa Lei Seca, até agora não houve queda na doação de órgãos no Ceará

Raimundo Barroso Filho, que sofre de miocardiopatia dilatada (conhecida como doença do coração crescido), está há um mês na fila de espera por um novo coração. Mesmo com a redução das mortes por acidentes de trânsito em decorrência da Lei Seca, ele diz que está "cheio de esperança e confiante que a doação vai surgir em breve". Ele é um dos 918 pacientes cadastrados na Central

de Transplante de Órgão e Tecidos do Ceará. Pelo menos até agora, a legislação não trouxe impacto negativo nas doações de órgãos. Em julho último foram realizados 71 transplantes e no mesmo período do ano passado, 62.

A morte encefálica é a condição primordial para que ocorra a doação de órgãos como fígado, coração, já que o rim pode ser doado entre vivos. E o paciente politraumatizado, vítima de acidente de trânsito, é o principal candidato a ter esse diagnóstico. Mesmo com a lei que proíbe o consumo de álcool por quem está dirigindo, no Instituto Doutor José Frota (IJF), maior centro captador de órgãos e tecidos do Estado, houve um aumento este mês do número de pacientes com morte encefálica. A enfermeira Lisiane Paiva, coordenadora da Comissão de Transplantes do IJF, diz que foram 16, quando antes variava de 10 a 12.

Segundo ela, o perfil do paciente atendido no hospital que tem morte encefálica é vítima de acidente com moto, de 16 a 30 anos, oriundo do interior do Estado. Lisiane observa que a maioria estava sem capacete na hora do acidente e nem sempre tem álcool associado. "Não queremos que mais pessoas morram de forma irresponsável, é importante que haja redução dos acidentes." Ela acrescenta que existem outros potenciais doadores como as vítimas de acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico, de arma de fogo, de queda da própria altura.

Por enquanto, as estatísticas são as mais positivas para o transplante de órgão. De janeiro a junho deste ano houve aumento de 17,8% no número de procedimentos em relação ao mesmo período de 2007, quando foram feitos 252. Eliana Barbosa, coordenadora da Central de Transplante, ressalta que a preocupação é com violência do trânsito que causa morte de jovens na idade produtiva. Ela acrescenta que nos países onde esse tipo de problema praticamente não existe, o perfil do doador mudou e que o mesmo pode ocorrer no Brasil. "A morte encefálica por traumatismo crânioencefálico pode deixar de ser a primeira causa, mas podemos trabalhar com paciente de AVC, vítima de tiro, por exemplo."

Juan Mejia, coordenador cirúrgico do Transplante Cardíaco do Hospital de Messejana, diz que prefere esperar os próximos três meses para avaliar se houve redução expressiva do número de doações em conseqüência da diminuição do número de mortes por acidentes de trânsito. "A morte encefálica é muito importante para doação, mas precisamos avaliar se a queda foi significativo ou não."

SERVIÇO:
Central de Transplante de Órgãos do Ceará: 3101 5255

E-MAIS
João Edílson Maia, 47, o primeiro paciente, no Ceará, a ser beneficiado com implante do suporte de circulação mecânico, conhecido como "coração artificial", morreu. Em maio último, cinco dias após o implante do mecanismo, que funciona como "ponte" para o transplante, ele recebeu a doação de um novo coração.

O coordenador cirúrgico do Transplante Cardíaco do Hospital de Messejana (HM), Juan Mejia, explica que o paciente teve boa recuperação pós-transplante e que a morte foi em decorrência de complicações, dois meses após o procedimento. Quando João recebeu o "coração artificial", estava internado há três meses e em estado grave.

No próximo sábado, a equipe do Hospital de Messejana (HM) realiza capacitação sobre implante de "coração artificial" para cirurgiões cardíacos da Escola Paulista de Medicina, Santa Casa de Misericórdia de Curitiba e Pró-Cardíaco (Rio de Janeiro). Juan Mejia diz que, no próximo mês, durante a realização do Congresso Brasileiro de Cardiologia, em Curitiba, o grupo do HM fará apresentação sobre o tema para os participantes do evento.

O IJF foi responsável por 103 das 206 captações de córnea no Estado; 14 das 16 de coração;20, das 31 de fígado e 28 das 44 de rim, segundo o hospital. Lisiane Paiva, coordenadora da Comissão de Transplante do IJF, diz que os números mostram o envolvimento do Instituto na campanha pela doação de órgãos no Ceará.

COMO FUNCIONA A FILA
Os candidatos a transplante de órgãos são cadastrados na Central de Transplante de Órgãos e Tecidos do Ceará. A fila de espera é formada por todos os que estão com exames atualizados (ativos). Atualmente, são 918 pacientes aguardando coração, rim, fígado e córnea.

Quando a família autoriza a doação de órgãos, a Central de Transplante coloca todos os dados do doador num programa elaborado pelo Ministério da Saúde (MS). É o próprio sistema que lista os pacientes, de acordo com critério exigido para cada órgão e tecido. A córnea, por exemplo, não precisa ter compatibilidade sanguínea e o critério é o tempo na lista de espera.

Os candidatos a transplante de fígado, rim e coração são distribuídos em fila por grupo sanguíneo. No rim, além disso, é preciso que o potencial doador tenha compatibilidade genética com o receptor. O código genético (HLA) é obtido por meio de exame. Por isso, quem está há mais tempo na fila pode não ser o beneficiado, mas o paciente compatível com o doador.

No fígado, além do grupo sanguíneo, é obedecido o critério de gravidade do paciente. A escolha de quem é considerado mais grave é feito por meio de cálculo matemático (programa do MS), com base no modelo americano. A pontuação varia de 10 a 40. O resultado de três exames é colocado no computador, que lança o valor. Quanto maior, mais grave. É o sistema que aponta o paciente que vai para o primeiro lugar na fila.

No coração, segue o critério da compatibilidade sanguínea e também da relação peso/idade entre doador e receptor.

As equipes transplantadoras dos respectivos órgãos são comunicadas sobre o paciente listado para receber o órgão doado. Se o candidato estiver doente, por exemplo, o médico justifica oficialmente o motivo da contra-indicação. Neste caso, a Central faz todo o processo para indicar um segundo nome da fila.

Fonte: Eliana Barbosa, coordenadora da Central de Transplante de Órgão e Tecido do Ceará (Fátima Guimarães - O Povo)


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